Estou aqui devorando uma barra inteira de chocolate, enquanto a minha ansiedade rola solta. O(s) último(s) livro(s) que comprei não consegui ler, mas estou aqui escrevendo sobre a minha dualidade.Além de ser introvertida (ok, eu repito muito isso aqui, mas tenho que salientar: eu só atraio gente extrovertida equilíbrio que chama?), tenho um estilo que naturalmente chama atenção. Já passei (hoje isso não me acontece mais) por situações bem chatas no passado, em que pessoas me tratavam como uma atração circense: me fotografavam sem permissão, me tocavam sem consentimento e me abordavam na rua para fazer algum tipo de questionamento tosco. Meu visual nem é tão transgressor assim, mas, sendo negra e do interior, esse tipo de coisa acontece.
Quando morei em uma capital meio que comecei a me descobrir, isso foi fluindo melhor a minha dualidade. Mas demorou anos (e muita terapia) para que eu ficasse em paz, começasse a estar em paz comigo mesma. É muito estranho pra mim ter um único visual. Não falo de instabilidade, mas de poder transparecer tudo o que você gosta em uma mesma roupa, ambiente e vida. Posso soar meio redundante às vezes, mas, sinceramente estou parando de ligar.
Estou aprendendo a me celebrar. Falando sobre racismo (isso inclui o estrutural), demorei a compreender que o negro não merece estar abaixo, ser sempre agressivo ou sem celebrar. Eu mereço sim, ser celebrada por mim mesma e por outras pessoas. Demorei a entender que desenhos e poemas que ganhei de gente que me conhecia apenas à distância, eram uma celebração de quem eu sou.Eu tenho uma certa dificuldade em aceitar presentes. Imagine alguém chegar com um desenho feito inspirado em você? Não estou aqui para me gabar, longe disso, mas para mim até pouco tempo atrás, era incompreensível receber esse tipo de carinho e admiração.
Imagine tentar lidar com a minha dualidade: uma pessoa introvertida chamar atenção. Teve uma época em que pessoas me abordavam apenas para me elogiar.Para uma pessoa que foi excluída por ser quem é, ser celebrada é bom e ao mesmo tempo, complicado de compreender. A gente quando se acostuma a vivenciar apenas um lado da moeda, demora a enxergar o outro.
Até eu encontrar um certo equilíbrio, errei e muito comigo mesma. Falo do meu próprio Instagram, onde publiquei além do que eu queria. Não falo de excesso de imagens no feed (não ligo mais para engajamento fazem anos), falo que eu não sabia como transmitir quem eu sou. Muitas vezes a gente se coloca apenas em um nicho, numa caixinha e a gente não cabe em uma só.Quando decidi mudar o rumo do blog, eu sabia que iria me repetir, pois blogar é sobre isso: falar do seu mundo particular para as pessoas. E adivinha? Nem todo mundo possui uma vida super badalada e/ou aesthetic. Nem todo mundo quer falar por inteiro sobre a própria vida no blog ou em qualquer outra plataforma em que esteja presente.
Eu aprendi a enxergar o mundo com todas as cores isso inclui os tons de cinza, mas ter TAG coloca uma película péssima sob o nosso olhar. E com muita terapia, isso se resolve.Hoje eu não sinto mais que preciso traduzir quem eu sou antes de entrar em um ambiente. Talvez eu nunca tenha sido duas coisas. Talvez eu sempre tenha sido muitas.Hoje digamos que me enxergo com mais leveza, mais coerência e menos exigência em alguns aspectos (pois nem tudo é perfeito). Hoje me apresento com mais segurança do que no passado. Ainda tenho minhas inseguranças para resolver, mas não deixo que isso interfira em quem eu sou e em quem estou me tornando.Por mais que pareça que eu esteja me explicando, esse texto é mais um manifesto do que qualquer outra coisa.
Não foi fácil (e ainda não é) ter controle sobre o meu corpo. Ainda recebo olhares tortos, moro numa cidade pequena,mas nas poucas vezes em que vou para a capital e me torno invisível, isso me deixa feliz de certa maneira.Quando comecei a me vestir para mim mesma, meus vários universos se alinharam, digamos assim. Foi como reencontrar uma parte de mim que eu estava ignorando havia um tempo. Vou aprender a celebrar a minha introversão, pois ainda a enxergo como barreira quando na verdade, ela também é profundidade.
Sobre exposição, aprendi que o medo paralisa. Que eu não devo ponderar tanto o que publico, sendo que meu conteúdo não é nocivo e eu mal me exponho. Faço isso na medida, digamos assim. Não busco engajamento, mas encontrar pessoas que convergem com o que eu gosto.Encontrei? Sim. Mas não a ponto de estreitar laços. Afinal, no Instagram, muitas vezes o que é valorizado é networking e não é isso que busco com as contas que criei. Foi mais para fazer as pazes com um momento ruim que vivi na rede social, em que até a publicação de uma fatia de bolo era motivo de crítica e desavença.
A ansiedade ainda aparece, mas hoje eu sei que ela não me define. Eu posso ser muitas coisas ao mesmo tempo,e talvez seja isso: aprender a existir sem pedir licença. Sem me diminuir para caber. Sem traduzir quem eu sou antes mesmo de ser.Se for para ser muitas, que eu seja inteira em cada uma delas.


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