Estou aqui devorando uma barra inteira de chocolate, enquanto a minha ansiedade rola solta. O(s) último(s) livro(s) que comprei não consegui ler, mas estou aqui escrevendo sobre a minha dualidade.Além de ser introvertida (ok, eu repito muito isso aqui, mas tenho que salientar: eu só atraio gente extrovertida equilíbrio que chama?), tenho um estilo que naturalmente chama atenção. Já passei (hoje isso não me acontece mais) por situações bem chatas no passado, em que pessoas me tratavam como uma atração circense: me fotografavam sem permissão, me tocavam sem consentimento e me abordavam na rua para fazer algum tipo de questionamento tosco. Meu visual nem é tão transgressor assim, mas, sendo negra e do interior, esse tipo de coisa acontece.
Quando morei em uma capital meio que comecei a me descobrir, isso foi fluindo melhor a minha dualidade. Mas demorou anos (e muita terapia) para que eu ficasse em paz, começasse a estar em paz comigo mesma. É muito estranho pra mim ter um único visual. Não falo de instabilidade, mas de poder transparecer tudo o que você gosta em uma mesma roupa, ambiente e vida. Posso soar meio redundante às vezes, mas, sinceramente estou parando de ligar.
Estou aprendendo a me celebrar. Falando sobre racismo (isso inclui o estrutural), demorei a compreender que o negro não merece estar abaixo, ser sempre agressivo ou sem celebrar. Eu mereço sim, ser celebrada por mim mesma e por outras pessoas. Demorei a entender que desenhos e poemas que ganhei de gente que me conhecia apenas à distância, eram uma celebração de quem eu sou.Eu tenho uma certa dificuldade em aceitar presentes. Imagine alguém chegar com um desenho feito inspirado em você? Não estou aqui para me gabar, longe disso, mas para mim até pouco tempo atrás, era incompreensível receber esse tipo de carinho e admiração.
Imagine tentar lidar com a minha dualidade: uma pessoa introvertida chamar atenção. Teve uma época em que pessoas me abordavam apenas para me elogiar.Para uma pessoa que foi excluída por ser quem é, ser celebrada é bom e ao mesmo tempo, complicado de compreender. A gente quando se acostuma a vivenciar apenas um lado da moeda, demora a enxergar o outro.

